Negócios Sociais: outro modelo econômico na prática

“Nós nos entendemos como parteiros dessa nova economia”, diz Luciano Gurgel, gestor de investimentos da Yunus Negócios Sociais Brasil

Flaviana Serafim (Alpha Test Fusion)

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São Paulo, Brasil (Alpha Test Fusion) – Há 49 anos, em setembro de 1970, o estadunidense Milton Friedman (1912-2006), ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1976, afirmava em artigo para a revista do The New York Times que “a responsabilidade social das empresas é aumentar seus lucros”.  Na visão do economista, as “responsabilidades sociais” são de indivíduos, mas não de negócios.

Ainda segundo Friedman, a responsabilidade social empresarial seria “imprudente” por não ter freios e contrapesos ao poder de ação das empresas, e “fútil” porque os executivos não podem impor custos a acionistas, clientes e funcionários, nem  seriam capazes de antecipar os resultados sociais. 

Em 2006, mesmo ano em que Friedman morreu, o Nobel de Economia é entregue ao responsável pela quebra de paradigma do economista estadunidense.

Fundador do Grameen Bank, o  bengali Muhammad Yunus, 79, mais conhecido pelo fomento ao microcrédito concedido a pessoas pobres, é a principal referência da atualidade quando se trata de negócios sociais.

Yunus defende, e mostra na prática por meio da Yunus Social Business, que é possível um outro modelo econômico, baseado em empreendimentos sociais que promovam lucro e renda com produtos ou serviços que resolvam um problema social ou ambiental.

Ele também defende que os lucros sejam reinvestidos no próprio negócio para ampliar os objetivos sociais, em vez da distribuição de dividendos “desfrutada pelos investidores” como critica no livro O banqueiro dos pobres (2006).

“Isso é uma construção muito poderosa porque permite que o recurso funcione de uma forma entrópica, gerando valor ao negócio para que ele gere o próprio lucro” explica Luciano Gurgel, gestor de investimentos da Yunus Negócios Sociais Brasil, com sede na zona oeste da capital paulista. 

Economista pela Universidade de São Paulo (USP), Gurgel traz na bagagem experiências no mercado financeiro, em bancos como Santander e Safra, e foi membro do comitê de finanças corporativas da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

“Há mais de quatro décadas, Yunus milita para que a economia utilize todo o ferramental de poder de articulação em prol de uma sociedade mais fraterna, mais humana e mais inclusiva”, destaca Gurgel.

Foi partindo dessa premissa que os US$ 27 emprestados por Yunus a 42 pessoas em 1976 se transformaram, em 1998, em 2,3 bilhões de dólares emprestados a 2,3 milhões de famílias de baixa renda. 

Por isso Yunus é um dos participantes convidados do Economia de Francisco, encontro mundial de iniciativa do Papa Francisco para debater outros modelos capazes de “re-almar a economia”, e que ocorre de 26  a 28 de março de 2020, em Assis, província de Perugia, na região central da Itália. 

“O que costumamos dizer é que trabalhamos 365 dias do ano  exatamente atrás disso que o Papa está incentivando, que é para que uma nova economia surja. Nós nos entendemos como parteiros dessa nova economia. Todo dia da nossa atuação e empenho profissional na Yunus é nessa direção”, diz Gurgel. 

Dados do Tendências Globais de Capital Humano 2019, da Deloitte, ressaltam a ascensão das empresas sociais, “forçando as organizações a ir além da missão e da filantropia para aprender a liderar o empreendimento social” e também a se reinventarem “em torno de um foco humano”, aponta o relatório.

Essa tendência já havia sido apontada no relatório do ano passado, divulgado pela Forbes em abril de 2018

NEGÓCIO SOCIAL “DE BAIXO PARA CIMA” E “DE CIMA PARA BAIXO”

Longe de caridade ou assistencialismos, os negócios sociais exigem viabilidade e sustentabilidade econômica como qualquer outro.

O empreendedor inicial ou o investidor capitalista coloca dinheiro no começo do empreendimento e recebe o valor de volta se o negócio prosperar por meio da Yunus Negócios Sociais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC Yunus), que faz a gestão dos recursos. 

FOTO: Estudantes criam seus próprios livros na “Estante Mágica”
CRÉDITO: Yunus Negócios Sociais Brasil/CC

Além de crédito, a Yunus capacita empreendedores e tem programas de aceleração, tais como a “Aceleradora de Mulheres Empreendedoras de Impacto na Periferia” (AMEI). 

Oferecido gratuitamente a 30 mulheres empreendedoras, a AMEI visa colocar a periferia no protagonismo do desenvolvimento econômico e social, potencializando os talentos existentes nas comunidades. 

De acordo com Gurgel, essa forma de atuação da Yunus ocorre numa abordagem “de cima para baixo” e noutra que é “de baixo para cima”: 

“A abordagem de baixo para cima é de apoiar empreendedores que militem por esses negócios sociais, apoiar quem cria soluções para resolver um problema social com mentorias, aceleração, capacitação. Também com apoio financeiro, investindo nesses empreendedores para que eles possam ter seus negócios sociais”. 

Entre os projetos apoiados pela Yunus Negócios Sociais Brasil está o Instituto Muda, que surgiu em 2007 voltado à gestão de resíduos e à educação ambiental em prédios residenciais de São Paulo. 

Há coleta seletiva, com todo material destinado a uma cooperativa de recicladores formada por trabalhadores em situação de vulnerabilidade social. Também há treinamento de funcionários, moradores e das trabalhadoras domésticas nos condomínios para conscientizar sobre a reciclagem.

FOTO: Cooperativa de reciclagem do Instituto Muda
CRÉDITO: Yunus Negócios Sociais Brasil/CC

A “Estante Mágica” oferece livros sem custo a escolas públicas e incentiva que os estudantes criem seus próprios livros, apoiando toda etapa de elaboração, ilustrações até o lançamento da publicação. 

Outro é o Assobio Soluções Ambientais, que planta árvores nativas para recuperar florestas degradadas, atendendo clientes empresariais que precisam fazer compensação ambiental da atividades. 

Além do plantio, há capacitação da comunidade local para o cuidado da floresta e ações de educação ambiental para jovens e crianças. Com o reflorestamento, um dos indicadores ambientais e o retorno dos pássaros, daí o nome “Assobio” ao projeto.

Assobio Soluções Ambientais – Aceleradora Yunus SP

Junto às grandes corporações na abordagem “de cima para baixo”, a Yunus Negócios Sociais compreende que as empresas têm um papel a cumprir. “Elas podem usar a musculatura, a robustez dos seus modelos de negócio em prol do impacto social”, afirma Gurgel. 

No Brasil, um dos casos de sucesso é o da água mineral Ama, realizado em parceria com a Ambev, que destina todo o lucro do produto a projetos de acesso à água no semiárido do país.  

Em 2017, por exemplo, o valor arrecadado, pouco mais de R$ 1,2 milhão, foi destinado à construção de três poços profundos nas comunidades de Carqueja do Sabino Mota, Caiçara, Sítio Volta e Bom Nome, todas em municípios do Ceará. Com os recursos, também foram instaladas micro usinas de energia solar para abastecer as casas com a água. 

Do início das vendas até o início de outubro de 2019, o lucro com as vendas da água Ama chegou a R$ 3,5 milhões, dos quais R$ 2,07 foram investidos em 29 projetos até o momento, beneficiando mais de 26 mil pessoas. A transparência do processo é auditada pela KPMG.

Entrevista com:

Luciano Gurgel, Economista pela Universidade de São Paulo (USP), Diretor de Investimentos da Yunus Negócios Sociais Brasil


Flaviana Serafim

#flaviana.fusion

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