Revolução Industrial 4.0: Automação afeta mais mulheres que homens, aponta estudo

Relatório aponta que as ocupações com alto potencial de automação afetam 9% das mulheres na comparação com 4% dos homens. Apesar do percentual, a transição da revolução 4.0 também pode trazer novos empregos e melhor remunerados às mulheres

Flaviana Serafim (Alpha Test Fusion)

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São Paulo, Brasil (Alpha Test Fusion)

De acordo com o relatório “O futuro é nosso: mulheres, automação e igualdade na era digital”, da think tank inglesa Institute for Public Policy Research (IPPR), as mudanças trazidas pela automação na revolução 4.0 afetam homens e mulheres de forma diferente – entre as ocupações com alto potencial de automação no Reino Unido, 9% afetam diretamente às mulheres contra 4% dos homens, e 64% dessas atividades empregam mulheres. 

O Brasil ocupa a 66ª posição do Índice Global de Inovação 2019 e tem muito a crescer quanto à automação, mas ao menos por enquanto as discussões para uma transição no país desconsideram as questões de gênero e até o momento pesquisas específicas são desconhecidas. 

Apesar da ausência de estudos considerando o cenário brasileiro, segundo a socióloga do Trabalho Carla Diéguez, docente e pesquisadora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), é possível confirmar esse impacto sobre as mulheres no país, e a automação crescente em caixas de supermercados é um exemplo de ocupação onde a presença feminina é majoritária. 

A pesquisadora diz que é preciso considerar o quanto a automação pode ser positiva no caso de trabalhos que são precários, perigosos e insalubres: 

“Os portuários, por exemplo. Não dá mais para se pensar em levar sacos de 50 quilos na cabeça em pleno século 21. É algo que exerce um peso sobre o corpo do ser humano que afeta as condições de saúde do trabalhador e da trabalhadora”.

Boa parte dessas atividades tendem a ser mecanizadas, liberando homens e mulheres de estarem expostos a essas condições de trabalho, afirma a socióloga.  Por outro lado, ela completa que, como há a tendência de substituição de ocupações que hoje empregam mulheres, a automação também tem o aspecto negativo de incrementar a desigualdade de gênero, tanto na ocupação do mercado de trabalho quanto nos salários. 

“A desigualdade de renda baseada no recorte de gênero ainda é alta no Brasil, onde as mulheres perfazem 75% dos salários dos homens, o que é um dado  muito ruim. Se a automação aumentar onde a presença feminina é maior, a tendência é que essa diferença de salários se amplie. Vamos ou ter a presença dessas mulheres em ocupações com baixo rendimento salarial, para que elas possam permanecer no mercado, ou um desemprego massivo de mulheres”, avalia. 

Vencedores e perdedores numa “sociedade de abundância”

O relatório do IPPR aponta que o desemprego gerado pela automação pode ser compensado pelo aumento de oportunidades de trabalho em outros áreas e tipos de emprego, uma vez que a eficiência reduz preços e libera a renda para ser gasta em outros setores econômicos.

A análise aponta ainda a tendência de aumento da demanda por habilidades “humanas”, como cuidar da população em envelhecimento, e para resolução de problemas sociais como a necessidade de reduzir as emissões de carbono, o que significaria criação de novos empregos, principalmente na “economia verde”. 

“Com a tendência de automatizar os trabalhos mais penosos, e que muitas vezes também são os que têm salários menores, a tendência seria de aumento de salário, numa ‘sociedade de abundância’ como a pesquisa aponta, uma sociedade onde as pessoas seriam bem pagas e teriam boas condições de vida, uma sociedade bem estar”, diz a socióloga. 

Apesar disso, o relatório pontua que “na ausência de intervenção política, o resultado mais provável da automação é o aumento das desigualdades de riqueza, renda e poder. É provável que os dividendos econômicos da automação fluam para os proprietários de tecnologias e empresas, e para trabalhadores altamente qualificados, à medida que a renda passa do trabalho para o capital e o mercado de trabalho polariza-se entre os empregos de alta e baixa qualificação”. 

Isso criaria “vencedores” e “perdedores” com a automação, e, de acordo com a análise do IPPR, o impacto vai depender da capacidade dos trabalhadores de fazer a transição para bons empregos na economia futura. 

Dependeria ainda de políticas públicas que, de acordo com o estudo, vão desde oportunidades de qualificação profissional, passando por incentivos governamentais à automação, e pela participação de sindicatos e trabalhadores nas discussões e deliberações para a transição. 

Segundo Carla Diéguez, a mudança tenderia a fazer crescer empregos onde se níveis de qualificação e produtividades são maiores, em empregos que teriam salários maiores, “mas quando olhamos para o Brasil e a qualidade do salário, o que resulta é em desemprego”, em vez de emprego em ocupações com maiores salários. 

Por isso a automação continua temida no Brasil devido aos riscos desemprego, pois as ocupações somem e as pessoas que saem da força de trabalho acabam ficando fora da população economicamente, seja por aposentadoria ou pelo desemprego porque não conseguem mais se realocar, observa a pesquisadora. 

“Como as mulheres estão sendo efetivamente qualificadas ou estão sendo preparadas para realocação e para assumir postos qualificados no futuro? Essa é a questão que fica. A presença de mulheres ainda é muito baixa em alguns setores, como o de tecnologia de informação, porque não há estímulo para elas conheçam e se qualificarem para esses áreas. Há uma questão anterior ao processo de automação”, completa a socióloga.  

A pergunta por enquanto segue sem resposta por parte dos governos e empresas. 

Carla Diéguez é docente e pesquisadora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e membro do Corpo Diretivo do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, com mestrado em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP e bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, seu foco de atuação é em Sociologia do Trabalho.

Flaviana Serafim

#flaviana.fusion

Um comentário em “Revolução Industrial 4.0: Automação afeta mais mulheres que homens, aponta estudo

  • 3 de outubro de 2019 em 11:48
    Permalink

    Ótima reportagem e muito pertinente os comentários. Parabéns Flaviana Serafim e a entrevista com a Professora Carla Diégues. É muito importante que continuemos desenvolvendo pesquisas estudos e análises sobre a Industria 4.0 e suas consequências no mundo do Trabalho. Também é importante que as associações de classe se atualizem neste debate para construir ferramentas proativas de solução dos problemas decorrentes das transformações que ocorrem com os usos das tecnologias para valorizar o trabalho humano em contraposição aos objetivos de lucro e aumento de desigualdades.

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