As “Novas Rotas da Seda” da China atingem a América Latina

Pepe Escobar (Asia Times)

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Bangkok (Alpha Test) – Uma acentuada mudança geoeconômica ocorreu no mês passado de Janeiro de 2018 em Santiago, Chile, na segunda reunião ministerial do CELAC-China, fórum que reúne a China e a Comunidade de 33 países Latino-Americanos e Caribenhos.

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, comentou ao público que a segunda maior economia do mundo e a América Latina deveriam unir esforços para apoiar o livre comércio. Trata-se de “oposição ao protecionismo” e “trabalhar por uma economia mundial aberta”, disse ele.

Depois de incentivar os países latino-americanos e caribenhos a participarem de uma grande exposição em Novembro na China, Wang apresentou o argumento decisivo – a América Latina deveria desempenhar um papel “significativo” nas “Novas Rota da Seda”, conhecida como a Iniciativa “One Belt, One Road“. A mídia chinesa destacou o convite.

O trecho latino-americano do projeto pode não ser tão ambicioso quanto o programa do trecho Eurásia, no entanto, a tendência agora é clara, com o apoio de Pequim, a conectividade da infraestrutura em toda a região Latina e no Caribe pode proporcionar mais negócios.

O imperativo estratégico é construir conexões em todo o continente, convergindo para a costa do Pacífico – e avançar pelas linhas de suprimento marítimo até a costa chinesa.

No ano passado, os bancos e instituições chinesas investiram US$ 23 bilhões na América Latina – o maior aumento desde 2010. E tudo isso a longo prazo.

Previsivelmente, o Brasil, membro do BRICS, é o maior recipiente do investimento estrangeiro chinês nos últimos 10 anos, com cerca de US$ 46,1 bilhões, além de mais de US$ 10 bilhões em aquisições. Rússia, Índia e África do Sul são as outras nações que compõem o bloco dos BRICS.

Custos despencaram

Marcos Troyjo, diretor do BricLab na Universidade Columbia, em Nova York, dividiu os números. Até meados de 2010, o Brasil era muito caro. Então, de repente, os custos despencaram devido à taxa de câmbio ou à desvalorização das empresas.

Grandes grupos brasileiros foram gravemente prejudicados pela incrivelmente complexa investigação de corrupção “Operação Lava Jato”. A indústria de infra-estrutura dependia de fundos estatais, que de repente secaram e uma louca privatização se seguiu com grupos chineses, americanos e europeus aproveitando-se da situação cambial.

A China já é o principal parceiro comercial do Brasil, Argentina, Chile e Peru. Outros inevitavelmente seguirão. Isso ocorre não apenas porque as importações de commodities da China, como minério de ferro, soja e milho, tendem a aumentar, mas também porque o Banco de Investimento em Infraestrutura da Ásia aumentará os empréstimos.

O plano diretor da China para o comércio e investimento na América Latina segue o que é chamado de estrutura “1 + 3 + 6”, mapeada pelo presidente Xi Jinping em julho de 2014, em uma cúpula em Brasília. O “1” refere-se ao próprio plano de cooperação, orientando projetos específicos e variando de 2015 a 2019, já que Pequim almeja US$ 250 bilhões em investimentos diretos e cerca de US$ 500 bilhões em comércio.

O “3” é sobre as principais áreas de cooperação – Comércio, Investimento e Finanças. E o “6” prioriza a cooperação em Energia e Recursos, Construção e Infraestrutura, Agricultura, Manufatura, Inovação Científica e Tecnológica, além de Tecnologia da Informação.

As três principais potências da América Latina, Brasil, Argentina e México, que também são membros do G20, estão em grande expansão de infraestrutura, que se encaixa no plano de Pequim.

É claro que haverá sérios problemas ao longo do caminho, como o Canal Interoceânico da Nicarágua, de US$ 50 bilhões, que agora compete com as relações do Panamá com a China, depois que o país rompeu relações com Taiwan. E a revolucionária ferrovia entre o Brasil e o Peru, a transcontinental também está bastante distante.

Mas o ministro das Relações Exteriores Wang teve o cuidado de explicar como o programa proposto para o Cinturão Latino beneficiará a região da América Latina. “Não tem nada a ver com competição geopolítica”, disse ele. “Ele segue o princípio de alcançar crescimento compartilhado por meio de discussão e colaboração. Não é como um jogo de soma zero. ”

No final, as recompensas geopolíticas da China acabarão por irritar positivamente a administração Trump, que tirou os olhos da bola em seu próprio quintal. Rex Tillerson (o secretário de Estado americano quando esta matéria foi originalmente publicada), decidiu pegar a estrada alguns dias depois da cúpula China-América Latina em Santiago, com paradas no México, Argentina, Peru, Colômbia e Jamaica.

Ele sublinhou a Doutrina Monroe como a pedra angular da política dos EUA na região. “[Isso] claramente tem sido um sucesso, porque… o que nos une neste hemisfério são valores democráticos compartilhados”.

“Poderes imperiais”

Tillerson então criticou a China, dizendo que a América Latina “não precisa de novas potências imperiais”. O Global Times enfatizou como Tillerson “desdenhou” a “abordagem construtiva” da China. “A China não tem bases militares na região e não enviou tropas para nenhum outros países da América Latina ”, afirmou.

Tillerson , acima de tudo, destacou a Venezuela. Ele sugeriu sanções destinadas contra “o regime” e não “o povo da Venezuela”, e afirmou que o president Nicolas Maduro poderia enfrentar um golpe militar, apesar de Washington “não estar buscando uma mudança de regime”.

De fato, persistem dúvidas sobre se o presidente Donald Trump vai aparecer na próxima Cúpula das Américas em abril, no Peru. O contraste é gritante com o presidente Xi, que já visitou a América Latina três vezes desde 2012.

Ainda assim, uma série de trabalhos acadêmicos mostrou como o Brasil e a Argentina reorientaram sua política externa de uma postura “pró-sul” para uma visão neoliberal pró-EUA. No entanto, a China continua avançando – geoeconomicamente e geopoliticamente.

E isso parece ser uma tendência. Washington precisará investir em um jogo muito mais sofisticado para competir economicamente contra a China. Esse seria o cenário ideal de comércio e investimento que beneficiaria mais a América Latina.

A opinião pública parece ter decidido. Em toda a América Latina, de acordo com uma pesquisa da Gallup, a aprovação da política externa dos EUA caiu de 49% em 2016 para 24% no ano passado. A aprovação do Presidente Trump é de 16%.

Em contraste, o investimento da China através da Iniciativa One Belt, One Road deu ao Presidente Xi um diferencial competitivo.